A IA pode ser arte?

 

O que transforma alguma coisa em arte, será a sua forma? Seu impacto nos nossos sentidos? Ou a história por trás dela também ajuda nesse significado?

Neste semana, viralizou uma nova função que permite a inteligência artificial mais famosa do mundo, o  Chat GPT, realizar alterações em imagens com mais contexto e a capacidade de, praticamente, recriar uma foto, ilustração ou semelhante em transformando numa outra versão em qualquer estilo que o usuário escolher.

Daí muitas pessoas começaram a fazer versões de suas fotos usando o estilo do Studio Ghibili, um famoso estúdio de animação japonês encabeçado pelo artista Hayao Miyazaki, que é considerado um dos gênios da animação moderna.

Porém Miyazaki é mais do que um diretor de animação ou um mero dono de estúdio, ele é entusiasta da arte. Muito antes de todo esse bafafá envolvendo IA começar a acontecer, ele já falava sobre a importância da arte para a sociedade e ele mesmo sempre foi muito meticuloso com suas produções, descrito algumas vezes até como 'obsessivo' com suas obras, dentre as quais se encontram o ganhador do Oscar de 2024 "O Menino e a Garça".

Uma prova dessa meticulosidade é uma cena que tem circulado nas redes sociais que tem a duração de 4 segundos, mas que teria demorado nada menos que 3 meses para ser feita. O trecho em específico é parte do longa "The Wind Rises" e surpreende pela riqueza de detalhes. Cada personagem ali tem um rosto, está fazendo alguma coisa, contando uma curta história.

Mas e se essa cena tivesse sido criada por um comando numa IA. Aliás, será que isso é mesmo possível? Se fosse, seria arte ou seria uma coisa outra?

Na minha experiência com IAs eu posso dizer que seria uma coisa outra, isso porque eu penso que a gente só poderia fazer arte com IA se ela realmente tivesse a capacidade de nos obedecer fielmente. Na data de hoje, por exemplo, é muito difícil fazer alterações numa imagem já gerada. Digo, mover objetos de lugar, trocar cores e outras coisas, mas isso a nível complexo. Geralmente a IA começa a alucinar (termo de quando ela começa a gerar coisas sem sentido), deformando a imagem ou fazendo alguma alteração que tem pouco a ver com o que você pediu.

Daí eu ouso dizer que, no futuro, se a IA puder realmente atender aos nossos comandos, poderíamos sim ter artistas de IA. Imagine, se você puder de fato circular uma área e pedir para que aconteça algo ali naquela imagem. Se a pessoa que está dando os comandos escolheu exatamente cada objeto que compõe aquela cena, aquela imagem, ela não foi pensada por um artista (mesmo que tenha sido executada por uma ferramenta de inteligência artificial)?

Eu sei, tem gente que vai vir dizer que hoje em dia a IA faz exatamente isso. Mas eu digo que não faz. Faço diariamente vários experimentos com IA e digo que, seu uso mais eficaz é pra imagens genéricas que podem ser facilmente substituídas por alguma de um banco de imagens, ou para pesquisas na internet, desde que você seja rigoroso no seu comando e faça com que ela te retorne informações pesquisadas na internet em artigos e etc, e mesmo assim, é preciso conferir rigorosamente o que, algumas vezes, da mais trabalho do que fazer do zero. 

Mesmo estando num estado muito aquém do que seria necessário para permitir que a gente considerasse arte, ou seja, no meu critério, que ela fizesse exatamente o que a gente mandasse e não alguma coisa aleatória ou alucinada, as coisas que IA faz são incríveis mais não substituem uma arte original feita por humanos (nesse momento).

E sim. Considero que, no futuro (se houver um futuro para essa tecnologia), quando as inteligências artificiais tiverem a capacidade de atender com rigor os nossos comandos, aí sim a gente volta nessa discussão.

Mas é importante reconsiderar que está havendo uma discussão sobre direitos autorais sobre "estilo artístico", será que é possível, por exemplo, imitar a prosa de Itamar Vieira Júnior? Caso sim, como a gente detecta isso? Qual a métrica? Isso porque, no caso de estilo, isso fica muito fácil de perceber, como no exemplo do próprio Studio Ghibli.

Mas peraí, Miyazaki não inventou esse estilo. Muitos alegam que as animações do Studio Ghibili se parecem muito com as obras de Kawase Hasui, um artista japonês do século XIX, que por sua vez se inspirava em pinturas clássicas do folclore japonês. E se fizermos esse caminho retrógrado podemos ir parar nas artes rupestres das cavernas.


Isso não desmerece a discussão sobre direitos autorais, pois, eticamente falando, estamos falando aqui, em geral, de grandes corporações explorando o trabalho de artistas que, em geral, são assalariados e mal conseguem viver de suas obras (salva as raras exceções). Talvez a discussão real aqui não seja sobre "direitos autorais" ou sobre o rastreio das obras que alimentaram as imagens, mas sim sobre capitalismo.

Estamos falando de conglomerados multi bilionários que estão sendo acusados, inclusive, de danos ao meio ambiente além de não serem sustentáveis ecologicamente  financeiramente. Mesmo chegando ao valor de R$120 reais a mensalidade do Chat GPT no Brasil (na cotação atual) esse valor, que não é barato, não faz o negócio se pagar fazendo com que as empresas de IA rodem no negativo. Apesar dessa ser uma prática comum nas Big Techs, isso é um mau sinal a curto prazo, pois os investidores estão apostando num sucesso muito deslocado no futuro. Além disso, a curva de crescimento da capacidade das IAs tem diminuído cada vez mais o que pode indicar uma bolha.

Discutir IA é mais do que discutir direitos autorais, é mais do que discutir a ética para com trabalhadores da arte, é discutir as estruturas da nossa sociedade. Mas uma coisa não se pode negar, cada vez mais, fica difícil não participar dessa discussão.

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